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Ditadura via “infiltração da esquerda” nos jornais como plano para derrubar governo
Documento secreto do regime alegava: “é muito difícil encontrar um comunista incapaz”
Foto: Reprodução
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 27 de março de 2025
O humorista carioca Lilico (Olívio Henrique da Silva Fortes) conhecido como o “homem do bumbo” costumava gritar um bordão enigmático nos programas de TV em que se apresentava nos anos 80: “Sabias que está sendo espiado?” Ele, que sempre teve problemas no tempo da censura para liberar seus textos, deixava a pergunta no ar. Nos dias de hoje, 40 anos após o fim do regime militar e com a liberação dos documentos secretos daquele período, a provocação de Lilico ganha sentido amplo. Informes da “Comunidade de Inteligência” da ditadura mostram uma vigilância meticulosa na mídia.
Combate à invasão vermelha
Entre o final da década de 1970 e início dos anos 80, um time de “elementos subversivos” se aproveitava dos postos nos meios de comunicação para fazer proselitismo político e direcionar o noticiário contra o governo militar, na visão dos seus prepostos. O país vivia a chamada “abertura” política. A “invasão” esquerdista na mídia, num contexto em que a censura prévia tinha acabado, aliada à incompetência dos integrantes do PDS (o partido do governo militar), deixava os dirigentes da ditadura pessimistas quanto ao futuro deles.
Com bomba e tudo
Um recorte deste cenário nacional, que analisa a situação da mídia de Salvador, está registrado nos relatórios levantados pelo projeto Memórias Reveladas, material que se encontra no Arquivo Nacional. São documentos preciosos para se entender o pensamento dos militares a respeito daquela época e como atuam regimes autoritários. Para o grupo do presidente João Figueiredo (1979-85) sintonizado com seu antecessor, Ernesto Geisel (1974-79), o processo de abertura deveria ser “lento e gradual”. Os opositores do regime se esforçavam para apressá-lo e os radicais de direita e seus grupos paramilitares não admitiam entregar o poder aos civis, reagindo com atentados à bomba em bancas de revistas que vendiam jornais críticos ao regime, e a instituições da sociedade que clamavam por democracia como a Ordem dos Advogados do Brasil.
Subversão à solta
O informe 42/03 da Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça (29.4.1983) que analisa a “infiltração comunista” no país, sustenta que a abertura, trouxe “um abrandamento nas rígidas medidas de segurança até então adotadas, relativamente à subversão, o que facultou, ao arrepio das leis vigentes, a atuação ostensiva das Organizações Subversivas nos diversos setores de atividade”. Com isso, prossegue o informe, essas organizações encontraram “campo fértil” para “realizar propaganda ideológica marxista-leninista; exercer livremente suas atividades; ridicularizar os anticomunistas, apontado-os como fascistas, radicais e violentos, colaborando dessa forma, para o enfraquecimento do regime; e fazer proselitismo à derrubada do governo, tendo por base de atuação e cobertura os partidos de oposição”.
Elogios da ditadura à esquerda
Na Bahia, os órgãos de inteligência da ditadura produziam relatórios regulares sobre a movimentação de “subversivos”. Um dos documentos mais reveladores é a “Informação 064/E2” da 2ª Seção do Comando da 6a Região Militar, de 12 de maio de 1983, cujo assunto era “Infiltração nos órgãos de Comunicação Social”. Com 16 páginas, num trecho o redator escreveu: “Em abundância os comunistas estão pelas redações dos jornais, corredores das rádios e televisões, nos palcos e atrás das telas de cinema [sic]”.
É difícil um comunista incapaz
Descrevem os repórteres dessa geração como, “jovens, egressos, a pouco, das Universidades” e é lá, e também no curso secundário, “que tem início a formação do militante”. O relatório segue com elogios aos jornalistas de esquerda. “É muito difícil ser encontrado em órgão de comunicação, profissionais pouco capazes, como também é muito difícil encontrar um comunista incapaz”. Com isso, os donos de jornais tinham que se dobrar aos profissionais ideologicamente de esquerda por serem, segundo os militares, os mais competentes. E aí vem um trecho preconceituoso, em relação ao jornalista baiano por sua “formação deficiente”. Essa seria a razão de os profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul terem vantagens na ocupação das redações. “Na disputa de uma colocação, a escolha recai sobre os que vêem [sic] tentar a vida na BAHIA, pela competência profissional, pela aparência, persistência, pontualidade, responsabilidade e pelo melhor cuidado ao vestir-se”. Ou seja, os militares consideravam o profissional baiano incompetente, feio, impontual, irresponsável e que se vestia mal. Constatam também que os proprietários dos jornais não se opunham à contratação de “esquerdistas”, pois estariam mais interessados com o produto final que poderiam lhes auferir lucros.
Os baianos nem tanto
A análise sustenta que a “grande imprensa” baiana contribuía para a subversão “mesmo que indiretamente ou intencionalmente” muito em função da omissão e incompetência “dos homens do governo em gerar o fato noticioso”. Para o araponga que redigiu o relatório, “a subversão leva ampla vantagem” em comandar o noticiário “pois [seus integrantes] são hábeis e mestres na arte de gerar a notícia ou criar o fato que gera a notícia”. Com efeito, os militares responsabilizam os representantes de direita, “acomodados ou desconhecendo o valor da imprensa” pelo fato de a mídia contribuir com a “subversão” já que os espaços jornalísticos são ocupados “por homens e notícias de esquerda”, enquanto os “fatos positivos” do regime militar “merecem pequeno destaque ou nenhuma notícia”.
Jornais com sabor de oposição
O relatório também analisa a linha editorial de cada um dos jornais. Diz que o Correio da Bahia “sofre influência pessoal do ex-governador [Antonio Carlos Magalhães] e indiretamente do PDS”. A Tarde “sofre, na parte religiosa, patrulhamento severo do Cardeal BRANDÃO VILELA. Este jornal, economicamente independente, tem demonstrado equilíbrio em suas matérias, embora conceda pequenos espaços à esquerda”. A Tribuna da Bahia teria “marcante influência da oposição (…). Os maiores espaços, dentre as notícias exclusivamente oposicionistas, são dedicados aos ‘feitos’ do PC do B”. O Jornal da Bahia [que na época não pertencia mais ao empresário comunista João Falcão] “procura ser um noticioso equilibrado com ‘sabor’ de oposição, o que naturalmente não consegue”. Assinala que “predominam” entre as notícias “as do interesse do PCB”. “Interessante notar as críticas feitas pelos jornalistas do PCB às ações do PC do B”.
Em relação às TVs, o documento destaca que a única emissora com programação local é a Itapoan, que sofreria a influência de ACM. “Inadvertidamente, leva ao ar notícias de esquerda e quando verifica em seus quadros a existência de elementos ligados à esquerda, os demite. Mas se o empregado de esquerda é bom, a demissão demora um pouco mais”.
Um conluio esquerdista
Um informe anterior, de 1977, produzido pela Aeronáutica e intitulado “Situação atual dos repórteres na imprensa da Bahia” alertava que “um forte esquema de elementos (esquerdistas), vêm se articulando no Jornal da Bahia e está cada vez mais forte,” listando 19 integrantes do grupo, cujo objetivo era “minar os Órgãos Oficiais junto à população, com matérias distorcidas explorando principalmente os seguintes aspectos: o custo de vida – a fome entre as camadas mais pobres – um suposto despreparo dos organismos policiais – invasões e grilagens de terra – violências policiais – dramas sociais – caso do menor abandonado etc”. Chama atenção no informe os detalhes, indicando quem frequentava a casa de determinado colega ou o comportamento dos “elementos” nas conversas de redação.
Disfarce dos bons
Quatro jornalistas vigiados na época nunca desconfiaram da presença de espiões nas redações. Emiliano José, um dos “cabeças” do grupo (autor do livro Os comunistas estão chegando com base no citado informe da Aeronáutica), ponderou que quem produziu o documento era desinformado. “Naquela época, eu estava consolidando minha carreira de jornalista, depois que fui libertado do cárcere da ditadura, não tinha objetivo de formar um conluio para derrubar o regime. É lógico que a nossa atuação como jornalista era firme, de denunciar as mazelas da sociedade”, disse. Emiliano não desconfiava da presença de informantes da ditadura na redação do Jornal da Bahia. “Não pensávamos nisso”. Carlos Navarro Filho, que não integrava o grupo dos 19, mas foi listado como “comunista” em vários relatórios da repressão, disse que havia um bar próximo da primeira sede do Jornal da Bahia, no bairro da Barroquinha, frequentado por jornalistas e alguns agentes da Polícia Federal, mas não suspeita que estivessem espionando as conversas.
Sem tempo para paranoias
José de Jesus Barreto também passou pelo Jornal da Bahia, mas não na época do informe. Seu nome consta em outro relatório da ditadura por ter entrevistado o preso político Theodomiro Romeiro dos Santos, na Penitenciária Lemos Brito. Na época, 1979, Barreto trabalhava na sucursal da Veja e tentava publicar a entrevista nas “Páginas Amarelas” da revista, o que é informado no documento da ditadura sobre ele. Não desconfia até hoje quem foi o espião que produziu o relatório. “Nunca me passou pela cabeça, na época, essa preocupação. Talvez por ingenuidade, babaquice juvenil mesmo. Não tínhamos tempo de cultivar paranoias. Queríamos fazer. Tinha minhas ligações e amizades com o pessoal da esquerda mas nunca fui filiado a partidos. Ajudava, por questões de consciência. Mas, como suspeitar de alguém que estava ao lado, partilhando? Na faculdade, anos 68 e 69. Tínhamos algumas desconfianças, mas nas redações que passei... nunca”.
Provas coladas do lixo
Pedro Formigli, outro integrante do grupo dos 19, corrobora Barreto, de que as desconfianças se voltavam à presença de “dedos-duros” na Universidade Federal da Bahia onde os dois estudaram. Formigli lembra de um episódio que dá bem a dimensão de como o radar dos órgãos de inteligência estava ligado na época. “Num período que lecionei no curso de Jornalismo coloquei uma pergunta na prova sobre uma reunião ou uma assembleia de estudantes que havia ocorrido, acho que em Minas. Isso foi noticiado pela imprensa e tudo. As provas eram mimeografadas e aquele original, o estêncil, que a gente usava para tirar as cópias, rasguei e descartei no lixo. Dias depois o diretor da Faculdade de Comunicação me chama para me repreender pelo fato de ter incluído aquela pergunta e me mostrou o original que joguei fora com os pedacinhos todos colados. Quer dizer, uma loucura”. O humorista Lilico também cantarolava uma musiquinha que deveria se referir ao tempo anterior a 1964, ano do golpe, pois foi chamado pelos militares para se explicar: “Tempo bom/ Não volta mais/ Saudade de outros tempos iguais”. Mas esta é uma outra história.
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