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1° de abril: o foco virou eu

Gostemos ou não, a Rede Globo e suas telenovelas, em seus 60 anos, foram para o Brasil o que o cinema de Hollywood foi para o mundo
Foto: Reprodução
O fato de ser o remake de uma das telenovelas de maior relevância da teledramaturgia brasileira já garante a Vale Tudo, de saída, uma audiência gigantesca. A novela, um capítulo dos mais importantes na linha do tempo deste que é um produto cultural fundamental para a formação do imaginário brasileiro, estreou com um apelo jamais visto na história da ficção seriada nacional: expectativa gerada pela comparação entre as duas versões, a de 1988 e a de 2025.
O Brasil era, até o início da segunda metade do século XX, um país majoritariamente rural. Com a industrialização, vieram a urbanização em ritmo acelerado e os fluxos migratórios massivos do interior para as cidades e suas bordas. Por conta da precariedade da formação escolar brasileira, mais grave e profunda naquela época para os mais pobres, o que se tinha era uma população rural que chegava às cidades sem qualquer experiência de urbanidade, alheia aos códigos de aparência, comportamento e discursos nas metrópoles.
Rede Globo e beijos
Nesse cenário, as telenovelas tiveram um papel extremamente significativo na construção dos valores, hábitos e comportamentos da sociedade brasileira a partir dos anos 1970. Elas funcionaram como uma espécie de manual de urbanidade, como vetores de orientação cultural para gerações que praticamente aprendiam com suas personagens a se vestir de novas formas, a usar vocabulários diferentes e até códigos estéticos e morais amorosos.
Há estudiosos da cultura que dizem que gerações inteiras do Ocidente aprenderam a gestualidade do beijo na boca, do ato de fumar e de códigos de sedução com os filmes de Hollywood e a propaganda americana da indústria cultural. Gostemos ou não, a Rede Globo e suas telenovelas, em seus 60 anos, foram para o Brasil o que o cinema de Hollywood foi para o mundo, essencial para a formação do imaginário e da subjetividade dos brasileiros. E aqui não se fala de representação legítima ou não, com personagens predominantemente das classes médias e altas do Rio de Janeiro e São Paulo. O fato é que boa parte dos migrantes do interior para as cidades foram esteticamente alfabetizados pela televisão, sem passar pelo livro.
Vale Tudo, nessa linha do tempo, foi uma obra fundamental. Exibida no mesmo ano da Constituição da Nova República, a novela tematizava características realistas nacionais não abordados explicitamente por suas antecessoras. Daí tanta gente agora interessada em ver o que parece ser a primeira novela comparada brasileira. Em um país historicamente noveleiro, conseguirão, emissora, autora, diretores e elenco traduzir as diferenças que separam 1988 de 2025?
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