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Sexta-feira, 04 de abril de 2025

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1° de abril: o foco virou eu

1° de abril: o foco virou eu

Virei personagem. E, a julgar por alguns comentários que li, quase cúmplice do acusado de verdade. Aliás, em certa medida, viraram o foco dele para mim

1° de abril: o foco virou eu

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 03 de abril de 2025 às 00:39

Ainda bem que perfis do Instagram sempre sabem o que fazer e estão preparados para tudo. Eles dizem. Pois, se dependesse de uma pessoa real como eu, cheia de defeitos ao vivo e a cores, o mundo certamente estaria ruim. Perfis de Instagram e colunistas caça-cliques de jornal. Dupla perfeita. Eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, eu confesso que fiquei assustado, paralisado mesmo quando, durante uma entrevista comum e até frívola, na Rádio Metropole, atendi à ligação de uma ouvinte anônima que denunciava ter sido estuprada, na infância, pelo entrevistado (que eu não conhecia, assim como à maioria dos entrevistados) na minha frente. Busquei esfriar a cabeça e conduzir da forma como manda a lei, sem antecipar juízos sobre algo, repito, tão sério e grave, o que poderia, inclusive, incorrer em processo criminal contra mim, que não tinha entrado na história.

Mas, não adiantou: virei personagem. E, a julgar por alguns comentários que li, quase cúmplice do acusado de verdade. Aliás, em certa medida, viraram o foco dele para mim. Talvez seja uma nova forma de fazer justiça às vítimas. O texto da colunista do Correio*, nem li, só a manchete. E, na verdade, me ponho a salvo de acompanhar tretas na internet, pelo bem de minha saúde mental. Sei que tudo sempre parece movido pelos melhores sentimentos (e que parte da comoção é real), mas há também um forte componente mórbido, sanguinário e irracional, que Freud descreveu quando ainda era estagiário. O outro componente é a pura simples vontade de lacrar, ganhar likes, engajar e vender anúncio com a desgraça alheia.

Por fim, recebi mensagens de pessoas lúcidas e compreensivas da situação difícil em que me vi involuntariamente. E recebi uma mensagem da própria pessoa que fez a denúncia, também compreensiva, considerando injustos os julgamentos sobre mim e afirmando não ter se sentido "desacolhida". Não bastasse a minha consciência, o depoimento dela me valeu. Conversamos com generosidade e sinceridade e seguro a sua mão, pois sei que dói.