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Adestra-se alunos: grandes redes de escolas particulares tornam educação fundamental uma fábrica de robôs

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Adestra-se alunos: grandes redes de escolas particulares tornam educação fundamental uma fábrica de robôs

Livros padronizados, professores sem autonomia e foco em provas de vestibular modificam ensino fundamental

Adestra-se alunos: grandes redes de escolas particulares tornam educação fundamental uma fábrica de robôs

Foto: Agência Brasil/José Cruz

Por: Laisa Gama e Mariana Bamberg no dia 03 de abril de 2025 às 08:57

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 3 de abril de 2025

Fórmulas prontas para responder questões, um checklist de assuntos e temas que devem ser conhecidos e interpretados por todos a partir de determinada visão, pensamentos padronizados e uma única finalidade: ser aprovado em testes. Se o conceito de educação estivesse em uma dessas fichas de resumo que se popularizaram entre os estudantes, seria descrito assim. Ou, entre aqueles que são ainda mais concisos e preferem palavras-chave, não faltariam os termos adestramento, provas e lucro.

Independente do modelo de resumo, o resultado desse cálculo é a formação, a médio e longo prazo, de uma geração de profissionais e principalmente cidadãos adestrados, com dilemas éticos e empobrecimento político e social. 

Trocando formação por fabricação

A formação humanística, que promove o pensamento crítico, compreensão de diferentes perspectivas culturais e históricas, competências éticas, emocionais, políticas e estéticas virou balela, “conversa de acadêmicos”, como sintetizam os empresários do setor. Foi substituída por um modelo fabril de educação. Ao invés de preparar o aluno para a vida, prepara para uma prova - afinal, o que há de mais importante do que um teste? É como se esse novo sistema de educação seguisse o modelo fordista, fabricando produtos (nesse caso os alunos) iguais, em larga escala, seguindo um modelo preestabelecido, que visa o lucro e não tem compromisso com o futuro. O futuro, na verdade, se resume à promessa de uma carreira de sucesso.

No fim do arco-íris, apenas carreiras

É fácil perceber isso. Os próprios comerciais e promoções das escolas só levam em conta as aprovações nos vestibulares. Quanto mais concorrido o curso, melhor o garoto-propaganda. Em Salvador, já tem até escola com turma separada apenas para aqueles que desejam se preparar para concorrer a uma vaga em cursos de Medicina. O alvo é uma carreira e não a formação de um cidadão.

De escolas a fábricas

Quem faz essa comparação entre a educação e o modelo fordista é Penildon Silva Filho, vice-reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e doutor em Educação. Ele lembra que, ironicamente, enquanto a educação é modelada por esse sistema adestrador, vivemos a chamada sociedade do conhecimento, mas destaca que conhecimento não é só informação, como esse a formação conteudista faz parecer.

“Há um modelo de educação que a gente chama de bancária, quando você só deposita a informação na cabeça do aluno. Mas conhecimento não é só informação. É concatenar ideias e ter um senso crítico”. O que estamos vivendo é uma formação que negligencia a compreensão sobre a vida, a democracia, a coletividade.

Agência Brasil/Marcelo Camargo

O negócio da educação

O vice-reitor não tem dúvida da relação entre esse modelo adestrador e a chegada de grandes grupos empresariais na Educação. Só em Salvador, por exemplo, três tradicionais colégios foram comprados nos últimos anos por uma mesma rede. A Inspira assumiu o São Paulo, o Anchieta e o Portinari. Segunda maior rede de educação básica do país, o grupo controla 104 escolas e recebeu um investimento de R$ 1 bilhão de um fundo americano. Um excelente negócio para quem busca lucro. 

Goela abaixo

Não por coincidência, esses colégios são alvo de reclamação de pais de alunos sobre a venda de kits didáticos padronizados e uma suposta venda casa de livros com uma plataforma digital. Além de questões financeiras causadas pelo modelo de venda das escolas, os pais apontam a falta de referências regionais nesses materiais, que são os mesmos para o Brasil inteiro.

Jussara Fernandes, mãe de um aluno do Colégio São Paulo - antigo conhecido dos leitores após o Ministério Público da Bahia entrar com uma ação civil pública sobre venda casada - relata a frustração ao perceber que o filho desconhece fatos históricos fundamentais sobre a Bahia. “Transitando pela Avenida Joana Angélica, a gente pergunta: quem foi Joana Angélica? Não sei. Como não sabe, não estudou na escola? Não. Hoje na escola os meninos sabem o que é Halloween, a data, como faz, como não faz, mas desconhecem o dia do folclore”, aponta.

Fórmula de bolo e lucro em vista

Parece uma receita de bolo, crianças todas iguais, que desconhecem as origens e com dificuldades de serem críticos e conscientes da sua própria identidade. A professora e pesquisadora da Ufba Giselly Lima de Moraes, doutora em Educação, alerta para os impactos dessa homogeneização do ensino. “A Base Nacional Comum Curricular deveria ser um guia, não imposição. Mas o que vemos é um ensino que trata a educação em escala industrial, sem conexão com os alunos”, critica. 

Castração do professor

Além da padronização dos materiais didáticos, há outra estratégia para o ensino adestrador: a castração dos professores, que perdem, cada vez mais, autonomia. Presidente do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia (Sinpro), Allyson Mustafa vê os professores como outra vítima desse sistema. Em muitas escolas, eles sequer participam da escolha do material didático. 

Lucro à risca

Mas buraco é muito embaixo, já que se trata também de relações de trabalho em empresas que levam o lucro à risca. “No estado atual, com o patronal que a gente tem hoje, que dialoga muito pouco e é muito autoritário, o espaço de participação do professor no fazer da escola tem sido reduzido”, criticou Mustafa.

Futuro para robôs

O lucro de hoje é a sociedade de amanhã. Os estudantes formados para uma carreira são os adultos que estarão não só no mercado de trabalho, mas principalmente na coletividade. Não à toa vem se tornando comum casos de médicos preocupados em vender tratamentos sem comprovação científica, engenheiros que dedicam-se apenas a entregar obras independente de seus impactos, advogados com problemas éticos e por aí vai.

Forma-se com esse modelo gerações de robôs adestrados apenas para responder questões. E não se engane com a promessa de carreiras de sucesso, salários exorbitantes. Essa formação gera, como lembra o vice-reitor da Ufba, apertadores de parafuso, como nos filmes de Charlie Chaplin. Mas o que o mundo pede é criatividade e raciocínio para desenvolver sistemas apertadores de parafusos.