Terça-feira, 21 de setembro de 2021

Quando não é milícia, é polícia

A intimidade da família Bolsonaro com milicianos é oficial. Foi oficializada muitas vezes e está documentada por meio dos empregos públicos dados a milicianos e a seus familiares em gabinetes da Câmara de Vereadores do Rio, da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados

Quando não é milícia, é polícia

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 26 de agosto de 2021 às 13:06

‘Sem polícia, nem a milícia, sem feitiço, cadê poder?’ A pergunta é um verso da canção Coração Civil, de 1981, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant. Mas poderia ser uma pergunta ao presidente da República, Jair Bolsonaro. No dia 7 de setembro deste ano, o Brasil comemora os 199 anos de independência, o que significa que o bicentenário, se tudo continuar como está, se dará sob o mandato do mais militaresco dos presidentes eleitos democraticamente no país.

São de conhecimento público as relações muito próximas entre o presidente e a milícia, com o berço dela, nas comunidades cariocas onde grupos organizados de policiais tomaram do estado e do tráfico o poder sobre a população e instauraram práticas de enriquecimento por monopólio da prestação de serviços, como venda de gás, transporte clandestino e tv a cabo, e a venda de proteção a moradores e comerciantes. Monopolizar serviços, extorquir, estabelecer pedágio para quem quer se manter em segurança e decidir quem e o que pode ou não pode nos territórios sob seu poder são marcas registraras da ação das milícias. 

A intimidade da família Bolsonaro com milicianos é oficial. Foi oficializada muitas vezes e está documentada por meio dos empregos públicos dados a milicianos e a seus familiares em gabinetes da Câmara de Vereadores do Rio, da Assembleia Legislativa e da Câmara dos Deputados. Estão aí os empregos dados a Fabrício Queiroz, à sua mulher e à filha. Também são públicas as condecorações com brasões de casas legislativas, como a recebida pelo líder miliciano Adriano da Nóbrega, morto em circunstâncias nebulosas no interior da Bahia numa operação da Polícia baiana. A proximidade e o apoio a milicianos eram tão escancarados que alguns dos condecorados receberam o mimo na cadeia, já presos. Além de ter sido homenageado quando já preso, Adriano também teve familiares empregados nos gabinetes dos bolsonaros, remunerados com dinheiro público. 

Fanfarrão, ameaçando todo mundo enquanto ainda estava deslumbrado e acreditava nos poderes universais de sua caneta Bic, o presidente tem sido obrigatório a perceber que a governabilidade ficou, no mínimo, compartilhada, e nada de Bic sem negociação e anuência prévias, após consultar o co-presidente, Arthur Lira, e seus aliados de alta plumagem, como Ciro Nogueira. Como ostentar a camaradagem com a milícia ficou fora de moda e seria desaconselhável pelo conselho de avaliação do centrão, o presidente vem investindo cada vez mais numa estratégia que já fez uma luz vermelha acender nos gabinetes dos governadores: insuflar os policiais militares a insurreições nos estados e usar o próximo dia 7 de setembro como um marco para que, armados, eles mostrem os dentes trincados para a população e para os críticos do governo. 

ARRANCANDO OS OLHOS - Dependente do centrão no Congresso, vendo Paulo Guedes murchar, banqueiros e magnatas assinando manifestos, o povo do agro recuando envergonhado diante de óperas bufas como a estrelada por Sérgio Reis e até os caminhoneiros dando meia volta por conta dos reajustes dos combustíveis, Bolsonaro sabe que alguma munição ele tem que ter para manter em funcionamento o seu núcleo duro. Depois dos tanques fumacentos no Palácio do Planalto gerarem constrangimentos, sobrou a ameaça ruidosa do apoio da base dos quartéis da Polícia Militar nos estados. Em São Paulo, o governador João Doria foi obrigado a, sob o risco de desmoralizar-se se não o fizesse, afastar, por indisciplina, o comandante da PM Aleksander Lacerda, responsável por mais de 5 mil policiais no interior do estado. Em suas redes sociais, Lacerda estava convocando policiais para se manifestarem apoiando Bolsonaro, o que é proibido pelo regimento da polícia. 

E, assim, o Brasil ‘segue’ parando. A um ano do bicentenário da independência, ainda não aprendemos a parar de culpar os portugueses por nossos males e fracassos e ainda estamos brigando para andar para trás, sonhando com golpe, ditadura, tanques enferrujados, armas, bombas e gás de uma polícia que adula o presidente ameaçando críticos na rua e arrancando olho de gente, como aconteceu em Recife, há pouco tempo. Coitada da democracia brasileira. Pegando emprestada a ideia do verso de outra canção, de Caetano, para falar dela, da democracia, aqui ela ainda é construção e já é ruína. Na dúvida, proteja os olhos do patriotismo militarizado no próximo 7 de setembro. 

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