Quarta-feira, 23 de junho de 2021

Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário  

Professora doutora Malu Fontes fala sobre o manifesto insosso dos jogadores da Seleção Brasileira contra a Copa América

Nem contra, nem a favor, muito pelo contrário  

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 10 de junho de 2021 às 09:21

Posicionar-se é preciso. Todo mundo cobra posicionamento de todo mundo e quem se posiciona dizendo que não vai se posicionar é empurrado para o paredão do cancelamento. Que o diga a atriz Juliana Paes, que entrou recentemente para o reino dos memes e para os anais da comédia política brasileira ao inserir no repertório da polarização nacional um fenômeno do qual ela diz estar cansada: os delírios comunistas. 

Na mesma frequência do não posicionamento de Juliana, cuja intenção parecia ser anunciar ao mundo que não é de esquerda, nem de direita, nem lulista e nem bolsonarista, os jogadores da seleção brasileira divulgaram na madrugada de quarta-feira uma carta manifestando-se sobre a Copa América e ao fato de ser sediada no Brasil. A carta foi um chabu. Um monte de frases genéricas depois, o texto, bem ruinzinho, aliás, em se tratando de tantas estrelas bilionárias, com dinheiro de sobra para contatarem um escriba melhorzinho, é tão firme e assertivo quanto pode ser um peixe ensaboado.

“Somos um grupo coeso, porém com ideias distintas. Por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada tardiamente no Chile ou mesmo no Brasil. Todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua realização. Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à seleção brasileira”. O trecho é curto, simples, mas requer tradução. 

O que está implícito na carta é mais ou menos isto: Somos contra, mas vamos jogar. Há uma pandemia que já matou no Brasil mais de 470 mil pessoas, até a redação deste texto, mas a gente não quer escrever as palavras morte, Covid ou pandemia. Basta escrever razões humanitárias e vocês entendem. Jogamos na Europa, estamos exaustos do trabalho que nos remunera com milhões de euros e dólares, achamos uma babaquice essa Copa América e, se os contratos com as marcas patrocinadoras da seleção e o contexto político permitissem, seríamos contra a realização e não jogaríamos. 

Embora haja, entre nós, quem ame e quem despreze Bolsonaro, todos nós amamos Tite e ninguém quer que ele seja demitido. Então, vamos lá. Façamos de conta que está tudo bem e, em nome da pátria e da camisa, vamos jogar bola e soltar os cachorros, como foi combinado nos bastidores, na Conmebol, essa entidade distante e longínqua que os grupos do zap e a maioria dos torcedores mal conhecem. O que a gente queria, mesmo, eram férias.  

A COPA E AS CEPAS - Desde o anúncio oficial, feito de véspera, do Brasil como sede da Copa América, circulava na imprensa a informação de que, após o jogo com o Paraguai, os jogadores se manifestariam coletivamente. De lá pra cá, as peças do jogo se movimentaram nos bastidores e já era previsível que a carta fosse o que foi, um texto invertebrado para acomodar a vaca que foi crescendo na sala da CBF. O presidente, Rogério Caboclo, foi afastado, no último sábado, acusado de assédio sexual. Antes de cair, teria prometido ao presidente Jair Bolsonaro demitir Tite e substituí-lo por Renato Gaúcho. A razão: Tite não se manifestou publicamente com o entusiasmo que Bolsonaro exigia. Dele, dos jogadores e da comissão técnica. 

A carta, assim pálida, por passar longe de posicionamentos claros ou críticos, tranquiliza os cartolas, deixa na conta de Caboclo e da Conmebol os erros pela decisão de trazer a Copa América para o Brasil, protege Tite da ira do governo e dos bolsonaristas e dá ao presidente a garantia da concordância com o evento. O general Mourão, o vice tido pelos inocentes como uma alternativa fofa ao presidente, deu entrevistas com ameaças veladas no fim de semana. Segundo Mourão, se um técnico está insatisfeito com a seleção brasileira, ora, a equipe do Cuiabá está precisando de um. A carta sem assinatura dos jogadores da seleção acalma a tempestade no Planalto e tira do Cuiabá a chance de analisar o currículo de Tite. Então, tá. Vai ter Copa. Sem vacinas, as cepas e o vírus que lutem e façam o seu trabalho como puderem.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

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