Quarta-feira, 23 de junho de 2021

Vacina pouca, minha prioridade primeiro

O critério para escolher grupos prioritários atende a razões técnicas ou a pressões sindicais e de classe? Jornalistas antes de domésticas?

Vacina pouca, minha prioridade primeiro

Foto: Divulgação

Por: James Martins no dia 22 de maio de 2021 às 09:37

Nunca gostei de gente que avança na mesa da comida como se tivesse acabado de chegar da guerra. Como se estivesse prestes a morrer de fome. A menos que seja, de fato, essa a situação. Na maioria das vezes não é. Por exemplo, uma vez participei de uma vaquinha para comprar pizzas com os colegas aqui da rádio. Mas, na hora de comer, desisti, pois me recusei a participar da barbárie na disputa por uma fatia — tinha gente enfiando até nos bolsos. Repito: nunca gostei de quem vai com muita sede ao pote porque só pensa em si. É claro que a vacinação contra a Covid-19 não é nenhum piquenique, mas, guardadas as devidas diferenças, é à mesma barbárie que estamos assistindo na escolha das prioridades. Nesta terça (18) foi decretada primazia para jornalistas acima dos 40 anos. Boa notícia, afinal, o jornalismo é mesmo um serviço essencial e não parou desde o início da pandemia. Mas, aí eu me pergunto: e os funcionários de supermercado?

Pelo viés da essencialidade e da exposição, eles estão muito mais expostos que eu e a maioria dos meus colegas. Aqui na Bahia, a primeira vítima da doença foi uma empregada doméstica. Elas já estão na lista de prioridades? E os porteiros? Minhas perguntas, algumas são retóricas, mas algumas são sinceras, já que eu não sou nenhum Pazuello em matéria de logística. Vamos pensar juntos. Seria impossível ou inviável que algumas categorias sofressem uma triagem interna? Por exemplo, um jornalista que cobre hospitais, cemitérios, vai pra rua, etc. seria priorizado em relação a mim, que me exponho bem menos. Assim como sei de profissionais da saúde que não exercem e que já tomaram suas doses. Alunos de medicina na casa dos 20 anos, que só têm aulas online, e que também já estão vacinados. E por aí vai. Resumindo, a luta de classes em torno da vacina é mais uma prova de nossa falha como espécie.

E não adianta botar toda a culpa nos políticos. Com honestidade e senso de coletividade a gente já teria avançado mais, mesmo que o comandante mor da nação seja quem é. Mesmo com a falta de vacinas sendo o maior e efetivo problema. Sempre estranhei que políticos saudáveis, que se vendem eleitoralmente como solução para todos os nossos problemas, uma vez presos descubram que são doentes graves, quiçá terminais. Pois agora a disputa, entre civis, é por comorbidades. Amigos que fizeram festas de fim de ano com a casa cheia e postaram, sem pudor, fotos nas redes sociais, agora se vacinam sob o ar condicionado de seus carros, como portadores de comorbidades, e gritam alegremente “Viva o SUS” no mesmo Instagram. Eu, no mínimo, teria vergonha.

Assim, com a lógica da vacina pouca minha prioridade primeiro, estacionamos por um bom tempo na faixa dos 60 anos. O que me parece terrível é que, sem sentimentalismo, poucos percebam que numa situação dessas o bem de todos é realmente o melhor para cada um. O todo é mais que a soma das partes. Esses dias um motorista de Uber me disse que a tendência agora é sobrar vacina no mundo inteiro e que o próximo carnaval tá garantido. E eu lhe disse amém. Para mim, que um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, resta mesmo a esperança desse nietzscheano übermensch: "Aquilo que não nos mata, nos faz mais fortes". 

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