METROPOLE

Domingo, 09 de maio de 2021

A tensão social vai ao shopping

Sobre os bondes, rolezinhos e os conflitos sociais

A tensão social vai ao shopping

Por: Malu Fontes no dia 29 de abril de 2021 às 17:23

A imprensa tem evitado falar do assunto, mas não só ela. Há algum tempo, e em várias versões, grupos de jovens apontados como sendo da periferia se organizam em turmas por bairro e vão para os shopping centers, principalmente nos finais de semana. Lá em 2008, o fenômeno ocorria no Iguatemi, hoje Shopping da Bahia, e era chamado de “os bondes”. As confusões acabavam, na época, com dezenas de meninos e meninas levados para uma unidade do Juizado de Menores localizada no shopping. A rede social da vez era o falecido Orkut e era por lá que os grupos se organizavam.

Simultaneamente os grupos passaram a ir para o Salvador Shopping, então recém-inaugurado. As empresas de segurança dos dois não faziam vista grossa e os tempos eram outros, sem cada um com um celular na mão para filmar os confrontos, a repressão, os embates e denunciar nas redes, como fazem agora. Em 2014, o assunto ganhou relevância nacional, por conta do confronto e da repressão entre seguranças e grupos semelhantes aos de Salvador de 2008 em um dos shoppings mais luxuosos de São Paulo, o Iguatemi JK. A única diferença era o fato de a presença e o comportamento dos jovens serem nomeados, agora nacionalmente, de rolezinhos.

Sem rodeios, rolezinho era sinômino da ida de grupos de meninos e meninas pobres da periferia para o shopping, sem dinheiro para comprar nada. E eles deixavam claro: não estavam ali para se comportar, para ficar andando em silêncio, olhando o que e como a classe média faz com seus desejos nos templos de consumo. Mais recentemente, o fenômeno vem se repetindo e em escala muito mais tensa no Salvador Shopping. As pessoas filmam, espalham nas redes sociais, e os nomes do que ocorre cada um dá como lhe parece ou convém: vandalismo, furtos e roubos em série, confusão, correria, arrastão, briga, tumulto.

Dizendo-se acuados e temerosos de serem acusados de preconceito de classe ou de racismo, lojistas, administradoras do shopping e clientes contam horrores, se queixam do silêncio da imprensa e das autoridades, mas não lhes peçam umas aspas, uma declaração, um áudio com suas opiniões sobre o fenômeno. Todos dizem ter medo da exposição, da reação da opinião pública e do cancelamento da pessoa física ou da marca e da loja no tribunal das redes sociais.

Quem defende os jovens usa como argumento o aprofundamento da desigualdade social, agora elevado a outra dimensão pela pandemia, a falta de opções de lazer para os jovens pobres, o racismo e o preconceito atribuídos a lojistas e consumidores e traduzidos nas ações dos seguranças e o direito de qualquer um a frequentar o lugar que quiser. O conflito vem se acirrando e, depois de meses fechadas por conta do lockdown, as lojas do Salvador, agora reabertas, tiveram que fechar as portas no último sábado durante uma confusão generalizada entre grupos. As imagens do tumulto são facilmente encontradas nas redes sociais.

PAPAI NOEL - O clima é de tensão nos bastidores, apesar do silêncio público autoimposto entre os envolvidos quanto ao desafio de lidar com a confusão quando ela ocorre. Clientes cobram da segurança e lojistas cobram das administradoras e do poder público um manual de comportamento e se queixam do silêncio da imprensa. Os grupos? Não são consultados. Mesmo porque, até onde se sabe, não têm liderança e vão pro shopping sem saber exatamente o que fazer com seus desejos e suas necessidades, coisas bem diferentes, mas, no caso deles, ambos impossíveis de contemplar.

Enquanto isso, todo mundo finge, mas só publicamente, não estar assistindo a um confronto que não se transformou ainda em tragédia coletiva, com gente morta e machucada, por obra do acaso. Em dezembro de 2010, um desses jovens, quando aparentemente tentava se divertir e atrair atenção dos outros, caiu do corrimão do 3º andar do shopping e morreu, sobre a neve artificial da decoração de natal e sob os pés de Papai Noel.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

A imprensa tem evitado falar do assunto, mas não só ela. Há algum tempo, e em várias versões, grupos de jovens apontados como sendo da periferia, se organizam em turmas por bairro e vão para os shopping centers, principalmente nos finais de semana. Lá em 2008, o fenômeno ocorria no Iguatemi, hoje Shopping da Bahia, e era chamado de “os bondes”. As confusões acabavam, na época, com dezenas de meninos e meninas levados para uma unidade do Juizado de Menores localizada no shopping. A rede social da vez era o falecido Orkut e era por lá que os grupos se organizavam.

Simultaneamente os grupos passaram a ir para o Salvador Shopping, então recém-inaugurado. As empresas de segurança dos dois não faziam vista grossa e os tempos eram outros, sem cada um com um celular na mão para filmar os confrontos, a repressão, os embates e denunciar nas redes, como fazem agora. Em 2014, o assunto ganhou relevância nacional, por conta do confronto e da repressão entre seguranças e grupos semelhantes aos de Salvador de 2008 em um dos shoppings mais luxuosos de São Paulo, o Iguatemi JK. A única diferença era o fato de a presença e o comportamento dos jovens serem nomeados, agora nacionalmente, de rolezinhos.

Sem rodeios, rolezinho era sinômino da ida de grupos de meninos e meninas pobres da periferia para o shopping, sem dinheiro para comprar nada. E eles deixavam claro: não estavam ali para se comportar, para ficar andando em silêncio, olhando o que e como a classe média faz com seus desejos nos templos de consumo. Mais recentemente, o fenômeno vem se repetindo e em escala muito mais tensa no Salvador Shopping. As pessoas filmam, espalham nas redes sociais, e os nomes do que ocorre cada um dá como lhe parece ou convém: vandalismo, furtos e roubos em série, confusão, correria, arrastão, briga, tumulto.

Dizendo-se acuados e temerosos de serem acusados de preconceito de classe ou de racismo, lojistas, administradoras do shopping e clientes contam horrores, se queixam do silêncio da imprensa e das autoridades, mas não lhes peçam umas aspas, uma declaração, um áudio com suas opiniões sobre o fenômeno. Todos dizem ter medo da exposição, da reação da opinião pública e do cancelamento da pessoa física ou da marca e da loja no tribunal das redes sociais.

Quem defende os jovens usa como argumento o aprofundamento da desigualdade social, agora elevado a outra dimensão pela pandemia, a falta de opções de lazer para os jovens pobres, o racismo e o preconceito atribuídos a lojistas e consumidores e traduzidos nas ações dos seguranças e o direito de qualquer um a frequentar o lugar que quiser. O conflito vem se acirrando e, depois de meses fechadas por conta do lockdown, as lojas do Salvador, agora reabertas, tiveram que fechar as portas no último sábado durante uma confusão generalizada entre grupos. As imagens do tumulto são facilmente encontradas nas redes sociais.

PAPAI NOEL - O clima é de tensão nos bastidores, apesar do silêncio público autoimposto entre os envolvidos quanto ao desafio de lidar com a confusão quando ela ocorre. Clientes cobram da segurança e lojistas cobram das administradoras e do poder público um manual de comportamento e se queixam do silêncio da imprensa. Os grupos? Não são consultados. Mesmo porque, até onde se sabe, não têm liderança e vão pro shopping sem saber exatamente o que fazer com seus desejos e suas necessidades, coisas bem diferentes, mas, no caso deles, ambos impossíveis de contemplar.

Enquanto isso, todo mundo finge, mas só publicamente, não estar assistindo a um confronto que não se transformou ainda em tragédia coletiva, com gente morta e machucada, por obra do acaso. Em dezembro de 2010, um desses jovens, quando aparentemente tentava se divertir e atrair atenção dos outros, caiu do corrimão do 3º andar do shopping e morreu, sobre a neve artificial da decoração de natal e sob os pés de Papai Noel.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

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