Cultura

Inauguração da Sala Neojiba é a melhor homenagem a João Gilberto

Verdadeiro templo ao silêncio, a sala de concertos no Parque do Queimado honra o legado de ousadia e competência do criador da bossa nova

[Inauguração da Sala Neojiba é a melhor homenagem a João Gilberto]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 10 de Julho de 2019 ⋅ 08:45

João Gilberto morreu, como todos sabemos, no último sábado (6), aos 88 anos, no Rio de Janeiro. No dia seguinte, no Fantástico, como parte das homenagens ao cantor, Arnaldo Antunes e Cézar Mendes interpretaram “João” — composição de ambos em louvor do pai da bossa nova. Muitos anos antes, porém, mais precisamente em 1995, o mesmo Arnaldo lançava uma música chamada “Consciência” (parceria com Edgard Scandurra) que diz, entre outras coisas: “Tire a mão da consciência e meta a mão na consistência”. E foi desse verso que lembrei ao chegar à cerimônia de inauguração da Sede do Neojiba, ontem (9), no Parque do Queimado, bairro da Liberdade.

Lembrei porque a sala de concertos sonhada pelo maestro Ricardo Castro e projetada por Yasuhisa Toyota, um dos mais competentes arquitetos em acústica do mundo, a consistência, a realidade daquela sala ali no Queimadinho me pareceu a melhor homenagem que se podia prestar a João Gilberto, aquele que, entre nós, fez o silêncio cantar. Ainda mais quando a jovem escolhida para anunciar o início do espetáculo, com Mateus Aleluia e Elomar, afirmou: “Agora o silêncio tem lugar”.

As escolhas não poderiam ser melhores: ali estava a Bahia muito bem representada em suas duas matrizes principais: afro e sertaneja. Tincoãs e Cantoria. E em seguida, de surpresa, o próprio João cantou. Uma gravação, obviamente, mas que emocionou a todos. “Meditação”, de Tom Jobim/Newton Mendonça: “Quem chorou, chorou, e tanto que seu pranto já secou”. No palco, uma cadeira vazia e um violão. Antes, visivelmente emocionado, Ricardo Castro pediu desculpas ao cantor por a sala ter chegado tarde demais para recebê-lo, e dedicou-lhe o espaço.

De fato, para muito além da homenagem no palco, a grande homenagem a João Gilberto, honra ao e derivação do seu legado, é a sala em si e tudo o que ela representa. Oriundo da Liberdade, o músico Luciano Calazans lembra: “Esse lugar, nos anos 1980/90 era considerado perigoso, até mesmo ponto de desova. Vê-lo transformado nisso aqui é muito animador”.

E ali estavam vários agentes importantes do nosso meio cultural, como Lia Robatto, Ivan Huol, Letieres Leite, Mabel Velloso, Gil Vicente Tavares, Moacyr Gramacho, Rose Lima, Vovô do Ilê, Fred Dantas e outros, além da Professora Nilza, criadora do Troca Livros e a primeira pessoa (que eu saiba) a chamar atenção sobre a importância do Parque do Queimado para o bairro.

Mas, voltando à pequena sala de concertos, voltada a apresentações de câmara, com 140 lugares, trata-se de um verdadeiro primor, templo do som/silêncio que nos deve orgulhar, inspirar e, como deseja o maestro, reeducar. Sim, ainda houve barulho por parte do público: conversas, cadeiras rangendo e bolsas abrindo. Mas isso tudo é resíduo de um outro tempo que devemos, gradativamente, deixar para trás.

A Sede do Neojiba honra João Gilberto porque, como ele, não se contentou com pouco, com o que (supostamente) daria pra fazer. Ao contrário, a Sala Neojiba ousou ser o que tinha de ser, uma ousadia. O melhor possível. E que o seu silêncio (não se ouve nem o ar condicionado) nos fale cada vez mais. João continua cantando: “Quem depois voltou / ao amor, ao sorriso e à flor, / então tudo encontrou / pois a própria dor / revelou o caminho do amor / e a tristeza acabou”.

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