Quarta-feira, 23 de junho de 2021

Precisamos falar sobre Kevin?  

O funkeiro MC Kevin caiu da varanda de um quarto de hotel, no 5º andar, fugindo, pelo que se sabe até agora, de um flagrante de adultério prestes a se transformar numa suruba

Precisamos falar sobre Kevin?  

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 20 de maio de 2021 às 11:22

“Isso aqui, ó, é amizade. São falsas amizades. Meu marido estava deitado comigo e teve que descer para pagar conta de hotel de gente que deveria ter vindo embora para São Paulo, mas quis ficar lá no meio. E ele se sentiu na obrigação de ser o paizinho de todo mundo. Nós não somos obrigados a tolerar gente sanguessuga do nosso lado”. Essas palavras foram ditas por Deolane Bezerra, advogada criminalista, viúva do MC Kevin, em tom de protesto e à beira do caixão aberto do funkeiro, cercado por centenas de fãs. Ela se referia às intensas últimas seis horas de vida do marido, regadas a álcool, maconha, ácido (MD) e sexo grupal. Com outra. 

Kevin Nascimento Bueno, paulista da Vila Ede, zona norte de São Paulo, morreu aos 23 anos, famoso, já considerado referência na cena funk da cidade, às 19 horas de domingo, 16 de maio, em circunstâncias que atualizam personagens e casos da obra de Nelson Rodrigues. O funkeiro caiu da varanda de um quarto de hotel, no 5º andar, fugindo, pelo que se sabe até agora, de um flagrante de adultério prestes a se transformar numa suruba, com uma moça que se autodeclara modelo fitness e a quem ele vira pela primeira vez apenas seis horas antes, num quiosque de praia na Barra da Tijuca. 

A modelo cobrou R$ 2 mil para fazer sexo no hotel com Kevin e um amigo, mil por cada um, e estrilou quando um terceiro quis participar. No meio da confusão, alguém bate na porta e, aparentemente, o temor de Kevin de que seria Deolane teria provocado a tragédia. O MC estava hospedado em outro quarto do hotel, com a mulher, no que, adotando liberdade poética, podemos chamar de lua de mel. Estavam casados há duas semanas. Na noite anterior, Kevin havia feito um show no Rio. 

CRISTIANO ARAÚJO, RELOADED - A morte de Kevin e a dimensão da cobertura do fato na imprensa remeteram à morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo, em 2015, ainda na era em que a relevância das redes sociais engatinhava. Enquanto praticamente todos os grandes veículos de comunicação do país dedicavam amplo espaço à morte, milhões de brasileiros se perguntavam quem era Cristiano. Difícil abrir um site esta semana e não se deparar com alguma referência à morte do MC paulista, pouquíssimo conhecido fora de São Paulo. Como uma das principais métricas para definir fama hoje são os números de seguidores nas redes sociais, ei-los: Kevin tem mais de 10,6 milhões de seguidores no Instagram e maia de 2,2 milhões de ouvintes mensais no Spotify. 

Diferentemente de Cristiano, cuja morte se deu em um acidente de carro, a de Kevin reúne elementos explosivos, da tragédia à fofoca: traição, adultério - essa palavra ainda existe, em 2021? - garota de programa, negociação de cachê, sexo grupal, sexo oral por falta de camisinha, álcool, maconha, ácido, paranoia, flagra, fuga pela janela, queda, morte por traumatismo craniano à beira da piscina, vários celulares apreendidos e sumiço de uma aliança de R$ 25 mil, usada por Kevin ao morrer. Além das acusações da viúva aos amigos do MC, responsabilizados pela morte, por, segundo ela, serem más influências e aproveitadores. 

A dramaturgia do caso se estende à polícia: o delegado que ouviu os envolvidos nas cenas de sexo no quarto que antecederam à queda é Henrique Damasceno, o mesmo que desvendou o caso Henry Borel e pediu a prisão do vereador Dr. Jairinho e Monique Medeiros, padrasto e mãe do menino. A declaração de amor e despedida postada nas redes pela viúva, imediatamente após a morte e antes que se soubesse dos detalhes e do contexto da queda, é uma ilustração das boas da vida de plástico no Instagram e do quanto a vida real é de viés. A de Kevin e as nossas.

 

Precisamos falar sobre Kevin?   - Metro 1